Lançamento do livro ‘Holocausto Brasileiro’ reúne dezenas de pessoas


Barbacena recebeu a jornalista e escritora Daniela Arbex, para lançar seu livro: Holocausto Brasileiro - Vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil. Conhecido como Colônia, o Hospital foi aberto em 1903, e atualmente abriga o Museu da Psiquiatria Brasileira. O evento, que integrou a programação de aniversário da cidade, aconteceu na noite da última terça-feira, 13, no Museu da Loucura.

A autora é repórter especial do jornal Tribuna de Minas e relatou que o livro surgiu a partir de uma série de matérias produzidas para o periódico. A obra traz relatos de sobreviventes e de testemunhas acerca do funcionamento e tratamento prestado no hospício.

Para a Presidente da Agência de Desenvolvimento Integrado de Barbacena e Região (AGIR), Maria da Glória Bittar, lançar o livro na semana do aniversário da cidade é um presente à Barbacena. “A história do Hospital Colônia, mais do que outras histórias, é parte fundamental à construção da história da cidade. O livro vem completar a história que começou há 20 anos, com a criação do Museu. É um livro incrível, com histórias fantásticas, digno de apreciação”, destacou a Presidente da AGIR.

Segundo a autora, Daniela Arbex, a obra é o resgate de uma história que foi contada em dois momentos: em 1961, pela Revista O Cruzeiro, e em 1979, pelo Estado de Minas. Mas que ainda não havia sido exposta sob o olhar de quem sobreviveu ao Hospital Colônia.

“A história foi construída a partir do acesso ao conjunto de imagens feitas no interior da unidade, em 1961, pelo fotógrafo da Revista O Cruzeiro, Luiz Alfredo. A Fundação Municipal de Cultura de Barbacena é detentora dos direitos autorais do maior registro fotográfico que existe sobre o Hospital, e eles cederam as imagens, que foram o meu ponto de partida”, contou a jornalista, afirmando que as imagens despertaram o interesse por  localizar  quem sobreviveu 50 anos após os cliques.

Pesquisas revelam que 70% dos internados não tinham diagnóstico de doença mental. Eram, em sua maioria, homossexuais, alcoólatras, prostitutas ou pessoas que contestavam a sociedade. E foi essa a história que Daniela contou, ela procurou as pessoas com a ajuda dos funcionários e colheu o máximo de depoimentos que podia. Arbex afirma que, nos últimos dois meses de trabalho, veio à Barbacena cerca de 50 vezes. “Conheci muita gente, funcionários, pacientes e filhos de pacientes que foram adotados. Contei toda essa história, que era desconhecida da população, e do Brasil”, disse.

A autora afirma que não imaginava o quanto as histórias que publicou no jornal tocariam os leitores, mas que ela sentia o impacto a cada nova descoberta. “Percebi que as histórias precisavam ser eternizadas, porque o livro tem esse papel, o de eternizar as histórias, e, mais do que isso, minha preocupação era registrar o que tinha acontecido, toda a oralidade, o mais rápido possível, porque as pessoas estavam morrendo. Meu receio era de que as pessoas morressem e, com elas, a história fosse enterrada”, destacou Arbex.

Apesar das histórias assustadoras e sombrias, o livro não tem só dor. Daniela Arbex fez questão de destacar que seu trabalho é cheio de esperança e superação. “É muito importante que todas as pessoas, principalmente os barbacenenses, conheçam essa história. A obra traz a realidade do sofrimento humano, mas é um convite à reflexão, à transformação social e ao resgate da humanidade. Conheçam o livro e se reconheçam, ele conta a história do Brasil, porque essa dor do ‘Colônia’ é nossa, é do país”, concluiu a autora.

Barbacena superou o modelo dos hospitais psiquiátricos através das residências terapêuticas. E, hoje, é a cidade do país com o maior número de serviços residenciais terapêuticos, proporcionalmente ao número de habitantes.

Um pouco das histórias

O livro Holocausto Brasileiro traz histórias de separação, angústia, tristeza, mas também de superação e esperança. Daniela Arbex conta que são histórias muito dramáticas, mas que ela teve a oportunidade conhecer pessoas incríveis. “Todos os casos são impressionantes, falam de dor, afastamentos, desencontros. Mas uma história que me marcou muito foi a do João Bosco, hoje, chefe da banda do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. A mãe do João Bosco, dona Geralda, foi estuprada pelo seu patrão aos 15 anos, quando era doméstica em uma casa de família. Para esconder a gravidez da empregada, o patrão, muito mais velho e influente na cidade, silenciou Geralda, internando-a no Hospital Colônia, onde ela concebeu João Bosco. Quando a criança tinha dois anos eles foram separados, ele foi levado para o orfanato sem o conhecimento da mãe. Só 40 anos mais tarde eles se reencontraram, numa iniciativa do Corpo de Bombeiros, que buscou informações e encontrou Geralda. Essa história me marcou muito por tratar do reencontro de duas vidas marcadas pela dor e separação que a Colônia impôs”, contou a repórter.

Arbex contabiliza ao menos 30 bebês nascidos no ‘Colônia’, doados sem o consentimento das mães. Os testemunhos de internos, médicos e funcionários que passaram pelo hospício são a base do livro.


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