Entrevista com o Prefeito Toninho Andrada
De nada adiantará o país ser a 7ª economia mundial se esta riqueza não chegar ao cidadão


O país passa por séria crise econômica e política. Como o senhor vê este quadro?
Com preocupação. O sistema político brasileiro é muito confuso e a deteriorização da economia expõe ainda mais essas fragilidades. Ninguém se entende, os partidos não têm legitimidade, as duas Casas do Congresso Nacional batem cabeça, o Executivo é inoperante, o Judiciário é impelido a agir além de suas possibilidades e está saturado de ações, e o Ministério Público cada vez mais assume papel policial… Neste ambiente de desequilíbrio institucional não há lideranças autorizadas para agir e nem instituições governamentais capazes de assumir responsabilidades na condução dos problemas que surgem. Vivemos um caos político num ambiente econômico extremamente delicado.

E quais as consequências deste cenário para os municípios?
São as piores possíveis. Pressionado pela crise econômica, o governo federal está promovendo duros e profundos cortes em seu orçamento. É bom lembrar o próprio governo é responsável pela crise ao manter gastos elevados sem ter receitas suficientes para bancar os programas em andamento. Agora, de forma açodada, abrupta e sem tempo para discutir critérios, faz cortes radicais em quase todas as áreas. O reflexo disso nos municípios é enorme, porque todas as ações municipais dependem dos recursos liberados por Brasília. Se a torneira fecha lá em cima, tudo para aqui em baixo. Os municípios são completamente dependentes do poder central e dos programas federais, e se eles sofrem cortes financeiros não há como mantê-los aqui na base. As cidades brasileiras não têm capacidade para investimentos; o que arrecadam mal dá para o pagamento de pessoal e o custeio da máquina.

O pior já passou?
Infelizmente, não. O pior está por vir… O que estamos vivenciando agora são reflexos da crise macroeconômica, da retração do mercado. As dificuldades administrativas decorrentes da crise serão agravadas com os cortes do governo federal, e serão sentidas de forma dramática no segundo semestre, quando a equipe econômica da presidente Dilma efetivar os cortes programados. O chamado ajuste fiscal está sendo votado no Parlamento, e somente após a aprovação é que a tesoura vai funcionar. Aí, o quadro que hoje é de muita dificuldade, ficará ainda mais complicado.

E quais as opções têm os municípios diante da crise?
Quase não existem alternativas razoáveis para os municípios. Sem receitas próprias que possam suportar os cortes de verbas federais e estaduais, os municípios não terão outra saída senão diminuir gastos. Isto significa cortes de pessoal, contenção de gastos que acabam refletindo na qualidade dos serviços prestados à população, diminuição de serviços, paralisação de obras, suspensão de pagamentos, etc.

E o reflexo deste quadro na sociedade?
A sensação de bem estar do cidadão acontece no município, onde ele mora, no seu cotidiano. De nada adiantará o país ser a 7ª economia mundial se esta riqueza não chegar ao cidadão para atendê-lo nas suas demandas rotineiras na saúde, na educação, na segurança, nos serviços assistenciais, na limpeza urbana, na mobilidade, nas obras de infraestrutura urbana, no abastecimento de água, de iluminação, etc. O duro ajuste economico do governo federal tem como foco a macroeconomia, mas não está levando em conta o outro lado, representado pelas microeconomias dos municípios e as suas demandas locais. Neste sentido, os reflexos serão muito negativos para a sociedade de forma geral.

Como Barbacena está se preparando para este cenário?
Com muito sacrifício. Estamos promovendo cortes de despesas, com dura redução da estrutura administrativa. Em seis meses já extinguimos 82 cargos e reduzimos vários programas com a demissão de quase 200 servidores. Outras providências de contenção e racionalização de gastos estão em andamento. Nossa preocupação tem sido evitar prejuízos à população no que concerne aos serviços prestados e aos investimentos programados. Mas não é uma tarefa fácil porque não temos segurança com relação ao comportamento do governo federal para a liberação de recursos. Se os cortes federais aumentarem, teremos que cortar mais.

Como é possível promover investimentos se a tônica são os cortes de despesas?
Uma das principais metas da minha gestão foi restabelecer o crédito do município junto as esferas federais e estaduais, e hoje Barbacena é uma das 4% das cidades brasileiras com ficha totalmente limpa. Foi um trabalho duro, mas avançamos. Por isso hoje temos condições de investir mesmo com a crise batendo em nossas portas. Investiremos nos próximos meses R$ 8 milhões em pavimentação de ruas e reformulação do trânsito da cidade com recursos do Banco de Desenvolvimento do Estado – BDMG. Inauguramos duas Unidades de Saúde recentemente, e o Pronto Atendimento do Hospital Regional – que é o melhor do interior de Minas Gerais – está funcionando com apoio financeiro da Prefeitura. Recuperamos o SAS nos dois primeiros anos e hoje a autarquia já iniciou investimentos de R$ 5 milhões para a duplicação da adutora. Como a Prefeitura está em dia com suas obrigações federativas, temos vários programas em andamento que representarão investimentos para a cidade. Nos próximos 10 meses iremos investir R$ 8 milhões em obras de iluminação pública, no maior volume de obras da história da cidade. Estamos colhendo hoje os frutos dos dois primeiros anos de gestão, mesmo com a grave crise econômica. Há também as parcerias e iniciativas que contam com criatividade.

Poderia citar algumas?
A realização da Expo 2015 foi um exemplo. Gastamos a metade do que foi destinado à festa em 2014 e fizemos o melhor evento dos últimos 15 anos. Isso foi possível porque recuperamos o Parque e o pretígio da festa, e assim conquistamos parceiros privados que investiram também. O Jubileu é outro exemplo: ganhou organização e segurança com o que se arrecadou. A parceria com o Grupo Ponto de Partida para revitalização do “Corredor Cultural” é outro exemplo. A realização da FEICOB é mais um exemplo de boa parceria com o empresariado. Temos muitas parcerias em andamento, e a principal delas é a destinada à construção do Shopping Center. Assim, teremos como manter a realização de importantes eventos e ofertar bons serviços à população.

Como o senhor viu a polêmica em torno da taxa de lixo ?
O brasileiro está acostumado a pagar impostos e não receber os serviços correspondentes, daí as fortes reações da população sempre que se fala em aumentar impostos. No caso da taxa de coleta de resíduos os serviços são prestados, e o que se cobrava era muito inferior aos custos dos serviços prestados. A cidade cresceu muito, o antigo lixão da cidade está interditado judicialmente, e ao longo dos anos quase nada foi investido no setor. Estamos trabalhando para dar uma solução consistente, com a contratação de uma Parceria Público Privada – PPP, que está em fase final. Com ela, o município terá um aterro sanitário e um arrojado sistema de coleta e tratamento do lixo, compatível com o tamanho da cidade e com a importância que temos na região. A alteração da legislação sobre o assunto era fundamental para o financiamento dos serviços e a devida segurança jurídica do que estamos construindo. Obviamente que por ser matéria nova algumas falhas pontuais podem ter ocorrido, mas o governo municipal se preparou para corrigi-las. Com a nova lei 88% das residências pagarão até R$ 300,00 anuais pelo serviço, numa média de R$ 25,00 mensais. E 65% das residências pagarão menos que R$ 100,00 o que representa uma média de R$ 8,30 mensais. O problema ambiental está na pauta do dia e não é mais possível fugir do problema. A polêmica foi criada por um grupo reduzido de menos de 12% da população, e artificialmente instigada pela oposição.

E as especulações sobre sua saída do PSDB ?
O sistema político brasileiro é esquizofrênico e precisa de uma reforma radical. Mas isso é uma medida difícil de ser realizada porque a classe política é produto destas distorções. As reformas ou alterações acabam sendo superficiais e insuficientes, e o problema vai se arrastando. Neste quadro, os partidos têm pouca legitimidade, são entidades quase simbólicas em termos de representação dos anseios da população. Numa visão superficial, o PT caiu no assistencialismo paternalista, o PMDB é prisioneiro do pragmatismo e o PSDB assumiu viés de laboratório econômico. Nos partidos, quase como regra, prevalecem o jogo individual em torno de certas lideranças. As mudanças de partido, neste cenário, acabam sendo uma consequencia natural, de acomodação e ajustamento político. No passado, seguindo a liderança do ex-governador Hélio Garcia, nos filiamos no PTB, depois, num novo momento, ao PSDB. Vejo com simpatia o partido que surgirá da fusão do PPS com o PSB, podendo representar uma nova oportunidade de alinhamento político.

 Ainda sobre política: o senhor disse que não concorrerá à reeleição. Por que?
Fui vereador e exerço o segundo mandato na Prefeitura de Barbacena. Ao todo, serão 12 anos de atuação municipalista. Neste período, fui também presidente da Associação Microrregional de Municípios - AMMA, do Consórcio Intermunicipal – CODAMA e da Associação Mineira de Municípios – AMM. Acredito que terei cumprido uma importante etapa na minha vida pública, e considero que poderei colaborar com o grupo político a que pertenço e com a cidade em outras posições e áreas de atuação pública. A decisão de não concorrer à reeleição em 2016 decorre desta visão.

O senhor esteve licenciado por 60 dias e retoma agora o trabalho na Prefeitura. Como avalia este período?
A atuação do vice-prefeito Mário Raimundo neste período é digna de elogios. Fez um trabalho sério, leal e muito dedicado às questões mais importantes para o município. Não mediu esforços na busca de soluções para os problemas que eram apresentados a ele.Tudo transcorreu da melhor maneira possível, num clima de entrosamento que não alterou as metas e os programas em andamento. Sou muito grato pelo seu companheirismo e pelo comprometimento com as coisas públicas.  


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