Exposição marca os 100 anos de nascimento do pintor Emeric Marcier
70 obras oriundas de coleções de familiares do artista, particulares e instituições integram a Exposição que acontece no Palácio das Artes, em Belo Horizonte


No ano em que se comemoram os 100 anos de nascimento do pintor Emeric Marcier, a Fundação Clóvis Salgado disponibiliza ao público sua travessia artística pelas tradições e pela religiosidade mineiras na exposição Marcier 100 – Emeric Marcier, recorte com aproximadamente 70 obras oriundas de coleções de familiares do artista, particulares e instituições, com curadoria de Edson Brandão.

São imagens que revelam uma nova vertente do trabalho do artista após o primeiro contato com as cidades históricas de Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Tiradentes e São João del Rei. Nessa nova fase, Marcier retratou as paisagens e cenários históricos desses locais utilizando as técnicas de óleo sobre tela e posteriormente temas sacros em murais, inspirados no estilo italiano dos séculos XIII e XIV.

Produzidas entre a década de 1940 até o fim dos anos 1980, as obras que chegam às galerias do Palácio das Artes representam o percurso da carreira de Marcier. Ao se deparar com a força do barroco em Minas, o artista rompe com a temática surrealista adquirida nas escolas de arte da Itália e França e passa a se dedicar a uma pintura figurativa focada nas paisagens, nos retratos e nos temas sacros. Com a construção de seu grande atelier no Sitio Sant’Anna, em Barbacena, passa a mergulhar profundamente na elaboração de pinturas sacras de grandes formatos. Esse novo momento na vida do pintor influenciou, inclusive, suas crenças. Naturalizado brasileiro, ele abandonou a religião judaica por influencia de seus amigos Jorge de Lima, Lucio Cardoso (seu padrinho de batismo) e Murilo Mendes e de sua esposa Julita.

O curador Edson Brandão destaca a característica antropológica da exposição. Para ele, essas obras evidenciam a mudança de estilo no trabalho de Marcier após ele conhecer uma nova cultura. “Emeric Marcier sentiu o impacto de chegar ao Brasil e viajar para o interior, região que ele mal conhecia. A forte presença da religião nas cidades de Minas abriu os olhos de Marcier para a arte sacra. A partir daí o trabalho dele torna-se algo que vai além do devocional, é a visão do próprio Marcier sobre Minas, sua gente, sua cultura”, explica o curador.

Para que o público possa compreender as vertentes do trabalho de Marcier, a exposição é dividida em dois ambientes. O Coeli – céu em latim, ficará na galeria Genesco Murta e vai abrigar a produção sacra de Marcier. Destaque para as telas das vias-sacras e da Pietá (Nossa Senhora da Piedade). Há, também, telas com profundas críticas sociais, como o São Sebastião do Rio de Janeiro, e obras com tom mitológico, como o quadro Prometheus.

Já a seção Terrae – terra em latim, na galeria Arlinda Corrêa Lima, é dedicada às pinturas de Marcier que refletem as paisagens das cidades históricas de Minas, como a famosa Praça de Tiradentes, em Ouro Preto, as ruelas e casinhas de Mariana e Tiradentes, além de outros cenários. O espaço também vai abrigar pinturas de figuras humanas, como retratos, autorretratos e uma suíte de nus.

Edson Brandão explica que separar a exposição em dois espaços é uma forma de mostrar ao visitante toda a versatilidade de um artista que foi influenciado por diferentes vertentes artísticas. “O Marcier era um pintor por excelência. O ofício dele era pintura, e essa ocupação foi sendo moldada com o passar dos anos. Esses dois ambientes mostram como Marcier foi transformando, modificando seu trabalho, que começou com influências europeias e culminou em algo que reflete as tradições do povo de Minas e foi capaz de mudar a forma como Marcier via a arte”, aponta o curador.

As obras podem ser apreciadas durante a Exposição que acontece até o dia 15 de janeiro, na Galeria Gensco Murta e Arlinda Corrêa, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Emeric Marcier – Pintor e muralista Romeno, Emeric Marcier (1916 –1990) foi naturalizado brasileiro e passava a maior parte de seu tempo entre as cidades de Barbacena e Rio de Janeiro, com frequentes e longas viagens pela Europa. O tema religioso perpassa sua obra com frequência. Estudou na Real Academia de Belas Artes de Brera por três anos, com especialização em murais e afrescos. Muda-se para Paris, onde frequentou a École Nationale Superieure des BeauxArts, durante um ano. Sendo um admirador do muralismo italiano dos séculos XIII e XIV, Emeric começou a produzir obras murais que também exploravam a religiosidade mineira, o sentimentalismo barroco das cidades históricas pelas quais passou, assim como Ouro Preto, Tiradentes e São João del Rei.

Conviveu com os pintores Arpad Szenes, Vieira da Silva, Vitor Brauner, Antonio Dacosta, Saul Steinberg, dentre outros, em Milão, em Paris e em Lisboa para onde se muda após o período parisiense. Em abril de 1940 veio para o Brasil fugindo da guerra, onde acabou por fixar residência. Aqui conviveu com os pintores Guignard (a quem apresentou Ouro Preto), Lasar Segal, José Pancetti, Di Cavalcanti, Antonio Bandeira, Carlos Scliar, Aldo Bonadei, Inimá de Paula e outros mais jovens como Fani e Carlos Bracher. Foi grande amigo de inúmeros escritores brasileiros, como Jorge de Lima, Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Lucio Cardoso, Manuel Bandeira, Carlos Drumond de Andrade, Cecília Meireles, Ledo Ivo e Roberto Alvim Correa. Sobre sua obra religiosa, Affonso Romano de Santanna publicou um livro Estória dos sofrimentos, morte e ressureição do Senhor Jesus Cristo na pintura de Emeric Marcier, publicado em 1983 pela Editora Pinacotheke.

Marcier deixou um livro de memórias intitulado Deportado para a vida, publicado pela Livraria Francisco Alves Editora, após sua morte que ocorreu em Paris, em 1990.

 


Busca de Notícias