O Holocausto Brasileiro e a verdade


Desde que foi lançado em 2013, o livro da jornalista Daniela Arbex, intitulado “Holocausto Brasileiro” vendeu 250 mil exemplares com o polêmico tema que cotidianamente reacende brasas meio adormecidas de uma importante história que povoa o imaginário de barbacenenses e brasileiros: o Hospital Colônia de Barbacena, criado em 1903. Falo em “brasas adormecidas” porque a história e denúncias abordadas não são novas. Mas a forma como a máquina promocional em torno do livro e agora da série de televisão atua, faz as pessoas imaginarem que tudo o que aparece em fotos preto-e-branco e depoimentos tornou-se público somente nesta obra, fazendo crer que estavam ocultos e não foram alvo de pesquisas, congressos e celeumas por várias décadas. Aliás, foram elas grandes contribuintes para o avanço da luta antimanicomial no Brasil.

Em 1979, quando as brasas ainda eram chamas crepitantes, o jornalista Hiram Firmino e o cineasta Helvécio Ratton, respeitados denunciantes dos horrores do Colônia, usaram a mídia, como o Jornal Estado de Minas, para apresentar de forma crua um lado sombrio da sociedade: a exclusão absoluta do doente mental ou do indesejado social. Em seu livro, “Porões da Loucura” Hiram lançou o tema para o país e me lembro da sua entrevista ao Jô Soares. Isso há 20 anos! Com todo o respeito, mas acho que o “Holocausto” apenas transportou estes fatos para o mundo do entretenimento. Isso também não é novidade. Hoje, a espetacularização das tragédias vem embrulhada com a indignação do “Wutbürger”, ou “cidadão raivoso” expressão criada pelo jornalista alemão Dirk Kurbjuweit que define a pessoa que expressa crítica rasa e cheia de opiniões radicais, comum nas redes sociais.

Mesmo apresentada como jornalismo investigativo, a dita obra deixa em plano secundário importantes dados, como o fato de que por décadas do século passado não existiam conhecimentos muito claros das patologias e medicamentos para a doença mental. Assim, os grandes hospícios eram a resposta mais factível de um Estado e uma sociedade excludente por convicção. Instituições como as Colônias Juliano Moreira e Juqueri, para citar só dois, sempre foram cenários de desolação humana e dignos de comoventes relatos. Não diferiam em nada da Colônia de Barbacena, mas com uma diferença crucial: a própria instituição, hoje Fhemig, se ocupou de preservar e assumir com maturidade e rigor historiográfico esses fatos, tendo a contribuição da Prefeitura de Barbacena.

As fotos mais contundentes usadas por Arbex foram adquiridas com recursos públicos e colocadas à disposição de pesquisadores na gestão do prefeito Martim Andrada e do vice Jairo Toledo, ex-diretor da Fhemig e idealizador do Festival da Loucura. Esta, aliás, uma iniciativa para tentar extirpar preconceitos. Em 1993, o jovem prefeito Antônio Carlos Andrada criou a Fundação de Cultura, da qual fui conselheiro, quando fundou-se o Museu da Loucura. Há 20 anos, como professor nas Faculdades de Direito, Filosofia e Medicina sigo os preceitos de Foucault realizando atividades extraclasse com outros docentes no Manicômio, Presídio e Museu da Loucura, resgatando assim, a formação humanística dos alunos e levando-os à uma visão crítica e humanística da sociedade.

Meus antepassados, como os de muitos barbacenenses, vieram para a cidade para trabalhar na Assistência de Alienados de Minas Gerais. Ainda criança eu visitava o Colônia e ouvia dolorosos relatos de pacientes esquecidos por familiares, mas também a gratidão por gestos de amparo e solidariedade. Irmãs de Caridade e vários funcionários moravam com suas famílias dentro do Colônia. Brasas adormecidas.

O psiquiatra italiano Franco Basaglia, líder mundial da Luta Antimanicomial há 40 anos, chamou a Colônia de “campo de concentração”. O fez em nome de um projeto de transformação e não como um mero fato jornalístico. Ao associar estes fatos com as ações dos nazistas, vale saber que a concentração era apenas uma parte do processo, pois o estado nazista expropriava, concentrava, explorava e eliminava os judeus nas câmaras de gás, para depois incinerar seus corpos. Isso era o Holocausto - expressão que significa “tudo queimado”.

Ao rotular a história do Colônia como um “Holocausto”, a obra lança no fogo do imediatismo qualquer relativização, pois amplifica ao máximo a tragédia deixando implícito que a meta da Colônia era roubar os já despossuídos, explorar suas poucas forças e finalmente queimá-los no esquecimento. Segundo a obra, uma prática sob a tutela do Estado com a conveniência dos barbacenenses e dos diretores, religiosos, médicos e servidores. Mas, daí nascem interrogações. Quantos viveram ali por décadas? Quantos tiveram alta? Qual a idade média dos mortos? Seria possível vender todos os corpos para o estudo da medicina? Quantos servidores cuidaram a contento dos pacientes? Como atuavam com os parcos recursos da ciência à época? E como evoluíram as terapias até os dias de hoje?

Por fim, falar em 60 mil vítimas sem fontes comprobatórias, nem apresentar metodologia de pesquisa para um assunto tão complexo é no mínimo temerário. Seguramente, o Colônia produziu inúmeras vítimas, mas começamos a desconfiar que a vítima maior do “Holocausto” pode estar sendo a verdade... E ponto final!

 

José Augusto Penna Naves – Secretário-Chefe da Casa Civil de Barbacena

(*) Artigo publicado no Jornal Praça Pública, de 25/11/2016 e transcrito da página do Facebook “José Augusto Penna Naves”, de 01/12/206. Fotos: Luiz Alfredo/Acervo da Prefeitura de Barbacena


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